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quarta-feira, outubro 22, 2008

Top 10 - Cinema Nacional

Pegando carona no post sobre Cinebiografias que o Samuel fez, resolvi inaugurar minha colaboração neste ilustríssimo blog com o meu Top 10, só que do Cinema Nacional. Seguem abaixo os melhores filmes produzidos no Brasil, em ordem alfabética e na minha opinião. E nada de Tropa de Elite hein, seus fanfarrões!


A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr. (1997) – o filme narra a história de Marcela, jovem que vive em uma ilha com seu pai e anseia por conhecer o mundo ao seu redor. Aprisionada pelo amor do pai, a jovem interpretada por Leandra Leal nutre um romance fantasioso com o vento. O filme é baseado no romance homônimo de Moacir C. Lopes e é uma das adaptações literárias mais bem cuidadas já produzidas no cinema nacional, considerada uma obra-prima pela crítica por seu lirismo. Destaque para a trilha sonora composta por Wagner Tiso, e para a canção-tema, composta por Chico Buarque. A fotografia de Pedro Farkas acaba se tornando um dos elementos mais importantes da narrativa, pois é através da atmosfera audiovisual que se consegue a conexão entre as intempéries da natureza e as intempéries da condição humana. O elenco conta ainda com a presença de Lima Duarte e Fernando Torres.


Abril Despedaçado, de Walter Salles (2000) – Tonho Breves precisa vingar a morte de seu irmão mais velho, no sertão brasileiro, vítima da luta pela posse de terra. Interpretado por Rodrigo Santoro, o jovem sabe que, vingando seu irmão, também ele será perseguido pela família rival, conforme o código de vingança que impera na região, semelhante ao código da máfia italiana de 50 em Nova York. Assim, Tonho tem o que lhe resta do mês de abril para esperar a morte ou questionar a lógica do processo. No elenco, Luiz Carlos Vasconcellos e José Dumont. O filme também é uma adaptação literária do romance homônimo de Ismail Kadaré. O grande destaque, além da interpretação de Ravi Ramos Lacerda como Pacu, o irmão mais novo de Tonho, é a fotografia dirigida por Walter Carvalho. O filme é um dos mais prestigiados do cinema nacional, tendo concorrido ao BAFTA e ao Globo de Ouro, e foi vencedor do Festival de Veneza.


Amarelo Manga, de Cláudio Assis (2003) – Estreante na direção, Cláudio Assis traz com Amarelo Manga um filme de forte cunho autoral e fora do padrão forjado para o cinema nacional na última década. Através de micro-histórias que se entrelaçam, o filme narra seus personagens e seus universos de maneira atípica e contundente, mostrando suas transformações psicossociais, num Texas Hotel perdido em Recife, tal qual um Bates Hotel de Hitchcock. A direção de fotografia também fica por conta de Walter Carvalho. Grande vencedor do Festival de Brasília, conquistando sete Candangos, e com atuações primorosas de Matheus Nachtergaele - como o homossexual Dunga - e Dira Paes - como a evangélica Kika, o filme impressiona ainda pelo seu baixo orçamento: Cláudio Assis rodou o longa com meros R$ 500.000,00, numa época em que filmes nacionais eram orçados em até três milhões de reais.


Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (1964) – O longa rodado em 1964 é figurinha fácil em qualquer Top 10 nacional, por sua linguagem diferenciada e, principalmente, por ser um Glauber Rocha. Sintetizando história, literatura de cordel, religiosidade e Euclides da Cunha num longa em preto e branco, Glauber cria um universo maniqueísta através de personagens demasiadamente humanos, e lança uma tese de que nem o demônio nem Deus serviriam de solução para os dramas pessoais e sociais de cada indivíduo, indicando através de sua narrativa que a humanidade precisa buscar para si a libertação. Com atuações de Yoná Magalhães e Othon Bastos, o longa é um marco no cinema nacional.


Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho (2001) – Também adaptação literária, da obra homônima de Raduan Nassar, o filme conta às avessas a parábola do filho pródigo. André fugiu de casa e cabe ao seu irmão mais velho, Pedro, trazê-lo de volta. Por ser o filme de estréia do cineasta,cabem muitos destaques a este filme. Além da fidelidade ao texto literário, que beira a reverência com as falas em off dos personagens; um elenco irrepreensível encabeçado por um brilhante Selton Mello, além da presença luminosa de Simone Spoladore e um Raul Cortez que, no fim, nos proporciona o grande momento do filme; temos mais uma vez a fotografia de Walter Carvalho a dar grandiosidade a um longa que, por sua natureza literária, causa arrebatamento pela beleza, sensibilidade e ausência de convenções. Mas, cuidado. Se você só quer passar o tempo, Lavoura Arcaica não é nem um pouco recomendável. Também foi o grande vencedor do Festival de Brasília, além de muitas premiações mundo afora.


O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhália (2006) – Heitor Dhália debutou no cinema com Nina, filme de 2004 cuja estética difere de tudo já produzido em âmbito nacional. Dois anos depois, ao dirigir O Cheiro do Ralo, Dhália nos apresenta novamente a uma estética pouco comum, narrando como um personagem de caráter questionável passa por declínios psicológicos e morais na mesma medida em que o cheiro exalado pelo ralo o incomoda. Através de um vendedor/comprador de objetos usados, que inicialmente é um ser humano normal e ao decorrer do longa se enche de obsessões, inclusive por uma bunda monumental, o diretor mostra toda a desconfiança que o autor do livro homônimo que inspirou o filme, o quadrinista Lourenço Mutarelli, tem pela humanidade e seus aspectos sociais. Destaque para mais uma atuação singular de Selton Mello, dando ao personagem principal uma voz rouca e uma atitude blasé que acabam por transformar Lourenço num anti-herói. Participação mais que especial de Paulo César Pereio como a voz do pai da noiva abandonada. Além da fotografia, meio amarela, quase enjoativa, dando uma idéia de atemporalidade ao filme e quase igual ao cheiro que sai do tal ralo.


O Céu de Suely, de Karim Aïnouz (2006) – do mesmo diretor de Madame Satã (2002) e com a fotografia consagrada de Walter Carvalho, o longa conta a história de Hermila, retirante nordestina que precisa retornar de São Paulo para o interior. Ela leva um filho no colo e deixa na cidade grande um amor, que lhe diz que vai ao seu encontro quando possível. O filme narra uma mulher mudada em uma cidade parada no tempo e no espaço, e como essa diferença de locação dá espaço pra solidão e pra sensação de abandono. E de como, inesperadamente, Hermila tenta mudar sua própria sorte, e na necessidade de se reinventar, se transforma em Suely. O filme de Aïnouz não é sobre um local específico, mas sobre as sensações de um personagem, suas nuances; Hermila seria Suely no interior do Nordeste ou no frio do Sul. No elenco, atores e atrizes iniciantes e praticamente desconhecidos do grande público, como Hermila Guedes – que vive a protagonista – e João Miguel, que também pode ser visto nos excelentes longas Cinema, Aspirinas e Urubus e Estômago.


Terra em Transe, de Glauber Rocha (1967) – Na fictícia Eldorado, política e revolução servem como pano de fundo para a alegoria que Glauber pretende defender com um dos ícones do Cinema Novo nacional. Traçando um paralelo entre a cidadezinha ficcional, o Brasil e até mesmo a América Latina, Glauber abre mão da narrativa convencional, abolindo a ordem cronológica dos fatos e imprimindo ao longa um tom quase burlesco. O filme fala de política num momento nevrálgico para os povos latino-americanos, com todas as suas ditaduras e revoluções de esquerda. Conta com um elenco de primeira grandeza, entre Paulo Autran, José Lewgoy, Paulo Gracindo e Hugo Carvana. É também um dos primeiros filmes de Paulo César Pereio.


Um Copo de Cólera, de Aluízio Abranches (1998) – Mais uma adaptação da obra de Raduan Nassar, o longa narra um dia na vida de um casal, e como as diferenças silenciadas podem eclodir à luz de um acontecimento banal. Ele, um homem de 40 anos que vive tal qual um eremita numa chácara distante de tudo e de todos. Ela, uma jornalista atraente e de forte atuação política. Após uma noite tórrida de sexo, o conflito, provando a tese do próprio Raduan de que não há limite no amor que não seja o mesmo limite do ódio. Mais uma vez, uma adaptação fiel ao texto literário que lhe deu origem, beirando a reverência. O casal Alexandre Borges e Júlia Lemmertz protagonizaram cenas polêmicas, porém líricas, assim como o próprio texto. Uma obra sutil, quase desprovida de ação, com diálogos intensos e ferozes.


Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963) – Adaptado da obra homônima de Graciliano Ramos, o longa tem por característica a influência do neo-realismo italiano no diretor. Contando a história de uma família de retirantes que tenta fugir da seca através do olhar do menino Fabiano e sua cachorra Baleia, o diretor repassa ao espectador toda a crueza do sertão, mas ainda assim com alguma poesia. O diretor concorreu à Palma de Ouro em Cannes, e foi à premiação acompanhado da cachorra Baleia, que mobilizou o mundo. Vidas Secas é o único filme nacional a constar na lista do British Film Institute entre as 360 obras cinematográficas fundamentais à história do cinema.


Espero que o post não tenha saído imeeeenso. E vocês repararam que dos dez filmes listados, seis são adaptações de obras literárias?

Daniela Andrade é brasiliense perdida/achada em Rio Branco. Não é acreana, mas também sabe gritar. E fala de si na terceira pessoa porque acha charmoso mesmo, e daí?

terça-feira, outubro 07, 2008

Top 10 Cinebiografias

A transposição de musica para as telas do cinema sempre foi uma máxima da indústria cinematográfica. No ramo das cinebiografias, a coisa é bem mais complexa. É evidente que não é qualquer um que ganha um filme inteiro falando sobre sua trajetória pessoal ou da sua banda, apenas aqueles que marcam história. Nunca é algo do momento, é algo de uma geração inteira. Não é difícil portanto, que em cinebiografias, os diretores dessas obras sejam verdadeiros fãs daqueles que eles estão tentando reproduzir com máxima eficiência em película.

Também não é fácil fazer uma cinebiografia e agradar a todos. Geralmente, fãs saem indignados das seções com aquilo que foi retratado sobre seus ídolos. Isso porque é difícil transpor a musicalidade de um cantor, ou de um grupo, num filme e juntar isso com trajetória e vida pessoal. No cinema, o maior peso é sempre para a dramatização, a obra musical sempre é deixada um pouco de lado, a imagem que você verá será apenas daquilo que foi especulado, boatos, gerou livros e biografias polêmicas do seu ídolo. Algumas obras se tornam genais, outras são decepcionantes.

Com base nisso, o site Cinemas e Afins, realizou Top 10 Cinebiografias de Músicos, que adapto com alguns comentários meus aqui:

1. The Doors (The Doors) – 1991
O diretor Oliver Stone acertou em cheio ao chamar o ator Val Kilmer para interpretar o louquíssimo Jim Morrison, ele entrou de tal forma no papel, que em alguns momentos chegamos a confundir os dois. O filme é digno das músicas da banda: é uma viagem. Ao assistir o filme você chega a se sentir entorpecido, como se estivesse na pele de um dos personagens que estão “doidões” de tanto ácido. Se você é fã da banda e ainda não assistiu (o que é pouco provável) corra para a internet e compre ou baixe, já que o filme é praticamente impossível de ser achado em dvd nas locadoras. Se você não é fã, também vale a pena conferir pelas ótimas atuações de Kilmer e Meg Ryan e curtir a participação de Billy Idol.

2. Amadeus (Mozart) – 1984
Milos Forman leva a tela a obra e vida do gigante da música clássica Wolfgang Amadeus Mozart. O personagem principal é na verdade é Antonio Salieri, um homem que odiou Mozart em vida. No filme ele confessa como foi responsável pela morte do jovem compositor e conta detalhadamente como conheceu, conviveu e passou a odiar o músico. O filme ganhou 8 Oscars, incluindo melhor filme e melhor diretor. Sem dúvida um filme que não deve faltar na estante de um grande apreciador de cinema e música clássica.

3. Não estou lá (Bob Dylan) – 2007
“Todos são ele. Nenhum é ele.” O filme mostra a carreira e vida do cantor Bob Dylan, separando de forma absurdamente genial todas as “personalidades” que Dylan passou ao longo da carreira. Em constante mutação, o cantor é interpretado por vários atores (Christian Bale, Cate Blanchett, Heath Ledger, Marcus Carl Franklin, Richard Gere e Ben Whishaw, um espetáculo por parte de cada um, mas com a “personalidades” mais fodas sendo representadas por Blanchett e Ledger) e nenhum deles leva o nome de Bob Dylan ao personagem. É uma obra interessantíssima exatamente por isso, mostrar facetas de uma mesma pessoa, como se ela fosse várias. Pessoalmente é de longe um dos meus filmes favoritos, a obra é incrível, os fãs de Dylan deliram, a dosagem de musicalidade e drama são quase perfeitas. Um verdadeiro mergulho na vida e obra de um dos maiores monstros musicais da história.

4. Johnny & June (Johnny Cash) – 2005
A história do cantor Johnny Cash é retratada de forma fiel, mostrando desde sua infância em uma fazenda de algodão até o inicio do sucesso. Mostra ainda como o grande amor de sua vida June Carter foi a única capaz de salvá-lo de um caminho de autodestruição que sua vida tomava rumo. Conta com atuações supremas de Joaquin Phoenix e Reese Whiterspoon nos papéis títulos. O que rendeu a Reese o Oscar de melhor atriz. Para quem pouco conhece a obra de Cash (como eu), é com certeza uma boa pedida. Todas as mulheres lá de casa se emocionaram horrores com esse filme.

5. Ray (Ray Charles) – 2004
O ator Jamie Foxx se destacou de forma estrondosa nesta obra que conta a vida do cantor cego Ray Charles. O Filme mostra desde o nascimento, a perda da visão, a descoberta do dom no teclado, até o vicio em drogas. Pontuado de flash-backs, o filme traduz todas as fazes desse gênio que morreu deixando um grande vazio para a música mundial. A crítica só tinha olhos para uma coisa nesse filme, a atuação assombrosa de Jamie Foxx, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator. O filme em si não foi tão querido. O roteiro abusou um pouco no drama, carregado demais, e deixou a musicalidade do gênio Ray Charles um tanto de lado.

6. Controle – A História de Ian Curtis (Joy Division) – 2007
O filme conta a conturbada trajetória do vocalista da banda Joy Division, Ian Curtis, considerado um gênio da musica, cujas baladas marcaram época, mas que devido a uma vida muito agitada e de problemas emocionais e pessoais intensos, sofrendo até mesmo de epilepsia, se matou. Os integrantes que sobraram criaram o New Order. O filme foi idolatrado na Inglaterra, considerado por alguns como o filme do ano, porém, no resto do mundo dividiu a crítica, embora a balança para positivo tenha pesado bem mais. O filme é todo rodado em preto e branco, mesmo com uma qualidade visual impecável. O roteiro é baseado apenas em fatos verídicos, nada de lendas, apresentações pequenas ou bastidores, a musica tambem é pouco explorada. O drama, as vezes maçante, de Curtis é o ponto alto. Porém, a atuação de Sam Riley como Curtis emocionou até o menor dos fãs.

7. Cazuza – O Tempo Não Para (Cazuza)
O único filme nacional a participar desta lista. O filme é um relato tocante da vida, carreira e morte de um dos maiores gênios do rock nacional. Cazuza era um poeta, um perdido, um louco. Ouso dizer que era um “Vinicius de Moraes com guitarra elétrica e sob o efeito de entorpecentes”. Obra baseada no livro escrito por sua mãe, esta mostra como a vida que Cazuza levava era intensa e sem rumo. Era um daqueles que se não morresse de Aids, morreria de overdose, acidente de carro, ou qualquer coisa resultado de seu estilo de vida. A atuação do jovem Daniel de Oliveira nos proporciona praticamente uma viagem no tempo, tamanha dedicação em “entrar no personagem” que este teve. Um dos filmes brasileiros mais marcantes dos últimos anos, conquistou até os maiores céticos do cinema nacional.

8. La Bamba (Richie Valens)
Richard Stephen Valenzuela, mais conhecido como Ritchie Valens, marcou o final dos anos 50 com uma carreira meteórica, recheada de sucessos e pontuada por uma das canções mais famosas de todos os tempos: “La Bamba“. O filme mostra sua carreira. É um filme leve, bem digno de seção da tarde, mas mesmo assim delicioso de se assistir.

9. A Fera do Rock (Jerry Lee Lewis) - 1989
Uma cinebiografia injustamente esquecida, uma explosão de som e imagem, que, para a época de lançamento, foi delicioso ver. Dennis Quaid está fantástico no papel de Lewis, se mostrando empolgado em frente ao piano. O filme conta também o envolvimento de Lewis com Myra Gale Lewis, com quem se casou quando ela tinha apenas 13 anos de idade. Tendo um elenco arrasador que conta com a participação de Alec Baldwin e Winona Rider, o filme realmente não deveria ser esquecido e merece um lugar nessa lista.

10. 8 Mile – Rua das Ilusões (Eminem) – 2002
Eminem teve e ainda tem um momento de gloria nos corações dos Rapers de plantão. O filme conta um pouco de sua vida conturbada, e como, em meio a tantos problemas, resolveu ingressar no movimento hip-hop para extravasar. Mostrando apenas o início da carreira de Eminem, o filme decepcionou fãs que esperavam mais de sua história, mas nem por isso não deve ser lembrado. É um dos relatos mais fiéis de um ícone da nova geração, coisa que não estamos acostumados a ver, visto que a maior parte das cinebiografias se foca em ídolos do passado. Vencedor inusitado do Oscar de Melhor Canção, com uma entrega de prêmio mais inusitada ainda.

Eu não sei vocês, mas dá vontade de realizar um Festival de Cinema só com cinebiografias.

PS: A 6ª posição do Top 10 foi originalmente ocupada pelo filme The Wonders – O Sonho Não Acabou, que eu não considerei digno da posição por se tratar de uma cinebiografia fake, ou seja, de uma banda que nunca existiu, assim, substitui pelo filme mais próximo de minha memória, Controle.