terça-feira, setembro 09, 2008

Velho da Corrente - A lenda

"Não tinha medo aquele tal de Raimundinho
Era o que todos diziam
Quando ele se perdeu"

Legião Urbana, na canção Raimundeste Caboclo





Antes que receber o apelido de “Velho da Corrente”, este não-muito-simpático Sr. aí da foto nasceu “Raimundo”. Raimundo Modesto da Silva. O pai sempre quis que o bacuri¹ se chamasse "Domingos José", mas sua mulher o convenceu a colocar o nome de Raimundo, em homenagem ao bisavô. Alagoano de Santana do Mandaú, aprendeu cedo a não ser modesto apenas no nome. Logo teve que largar os estudos para ajudar na lavoura. Mas as dificuldades da vida no campo o levaram – como muitos de seus vizinhos nordestinos – a tentar a sorte no norte do país. E na boléia de um caminhão, embarcou rumo às planícies acreanas...

Ele ficou bestificado com o que encontrou na região. “Meu Deus, mas que terra bonita!”, dizia. “No ano novo eu começo a trabalhar. Aqui tem muita terra boa e sem dono. Até que enfim vou ter meu roçado, minha terrinha pra plantar”. Assim, Raimundo fazia planos e sonhava, sem imaginar que surpresas a vida lhe reservava para dali a alguns anos.

Não se sabe ao certo em que circunstâncias, mas Seu Raimundo acabou arranjando um pedaço de terra no Município de Boca do Acre(AM), que, como muita gente sabe, é mais acreano que amazonense. Estabeleceu-se e começou a produzir ali, com sua família, em regime de subsistência. Plantava mandioca, milho, tomate. Criava uma ou outra cabeça de gado. Até mesmo chegou a erguer, além da casinha onde morava, um curral e uma casa de farinha, e dizia o quanto essa terra era abençoada.

E não é que seu futuro era incerto?

Seu Raimundo, algum tempo depois, acabou sendo informado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA de que “sua” terra não era sua. Terras da União, eles diziam. Não tive acesso aos trâmites processuais, então vou me abster de tecer comentários jurídicos enfadonhos. O certo é que Raimundo teria que deixar a terra, mas seria indenizado por todas as benfeitorias que havia feito no local, ou seja, receberia um trocado – prêmio de consolação, talvez – pelas estruturas que tivesse erguido na terra (sua casinha, o curral, a casa de farinha, etc...). “Tudo bem...”, dizia ele, meio cabisbaixo. “Com esse dinheiro, arranjo outra terra e volto a ter meu lar de novo”.

Ocorre que o tempo foi passando e nada do Seu Raimundo receber uma dívida que começou em 50 mil reais e atualmente estar em mais de 500 mil reais!! (Ou pelo menos é o que ele diz ter direito a receber... me pergunto agora que mansão ele construiu no local...). Pois é, o Seu Raimundo, pessoa de pouca instrução, lembrem-se, botou na cabeça que tem direito a receber de indenização mais de 500 mil reais por ter sido expulso de sua terra e nada ter recebido até o momento (não me perguntem como uma dívida pode subir tanto... sou só o narrador desta fábula...).

Aí, vocês já sabem... o cara pirou, né?. Juntar anos e anos de exposição ao sol escaldante na lavoura com um problemão desses, bem... não é todo mundo que segura a onda.

Começou, então, a longa jornada de peregrinação e protesto de Raimundo. Meses e meses indo a Órgãos Públicos, pedindo informações, pedindo agilidade no processo, pedindo, pedindo... “Tô passando fome, minha gente!”. E nada da questão ser resolvida. Até que Raimundo se cansou. Talvez algo tivesse morrido dentro dele. Aquele fio de esperança que o levou para tão longe de casa. Nascia então o “Velho da Corrente”.

Ele passou a se acorrentar em prédios públicos, na tentativa de chamar a atenção das autoridades para o seu caso. Ficava dias acorrentado, sob sol e chuva, e dizem até que tentou colocar fogo no prédio da Assembléia Legislativa do Acre. As pessoas passavam na rua e viam aquele velhinho acorrentado. Uns sentiam pena, outros encorajavam. “É isso mesmo, Seu Raimundo! Continue assim que o Sr. consegue!”. Outros simplesmente o consideravam louco e talvez o fosse mesmo, já que quando ele botava algo em sua cabeça, nada nem ninguém o fazia mudar de idéia. Não se sabe. Mas a verdade é que o Velho da Corrente era uma figura curiosa.

Tive a oportunidade de conhecê-lo nessa fase de sua vida. Disse “oportunidade” e não “prazer”, pois não foi um encontro dos mais amistosos. Trocamos algumas palavras apenas, quer dizer, ele trocou comigo, a maioria xingamentos. Eu trabalhava à época na Procuradoria da República, onde ele ficou acorrentado durante 62 dias!! Isso mesmo, mais de dois meses, em que ele, religiosamente, chegava às oito da manhã, acorrentava-se ao portão e de lá só saía às seis da tarde, para retornar no dia seguinte e repetir a façanha. E não importava o número de pessoas que chegavam até ele e diziam “Seu Raimundo, o Sr. não vai resolver seu problema aqui...”. Ele estava irredutível. Pra se ter idéia, não podíamos sequer oferecer água a ele... “Não! Vocês querem me matar! Sai daqui! Eu quero meu dinheiro!!”...

Um dia, depois de mais de dois meses, cansado e debilitado do protesto pacífico, o Velho da Corrente resolveu xingar um Procurador da República. Este, obviamente, não gostou e lhe deu voz de prisão. Seu Raimundo tratou logo de soltar as correntes e saiu em disparada rumo ao Segundo Distrito daqui de Rio Branco, passando pela Ponte Metálica e sendo perseguido por um Procurador da República, numa cena digna de filmes de ação do John Woo (só que sem as explosões e tal). Conseguiu despistá-lo e sumiu pela cidade. Fiquei sabendo depois que o Procurador disse que “Raimundo possuía uma resistência impressionante”. Não duvido. Os anos de enxada e sol quente devem tê-lo feito uma rocha!

Desde então, nunca mais ouvi falar do Velho da Corrente. Sumiu na vida, sem conseguir aquilo pelo qual tinha vindo, como um João de Santo Cristo acreano. Resta agora esperar e ver se em algum lugar deste Brasil aparece um velhinho acorrentado num prédio público. Daí eu saberei que a lenda continua viva...

1 Bacuri: criança. Fonte: Dicionário Informal.

Links (para quem ainda acha que é só uma história...):

- Colono acreano tenta enforcamento em praça pública

6 comentários:

  1. Caramba isso dá um filme.
    hahaha

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  2. Caramba isso dá um filme. [2]

    Chico Mouse interpretará o Velho da Corrente.

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  3. No way! Tô mais pra "vendedor de picolé que passava na rua e viu a confusão"...

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  4. Sem trocadilhos, mas..."quando a realidade parece ficção, é hora de fazer documentário"...hehehe

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  5. O curioso é o final da história. Raimundinho passou anos atrás da Justiça e no final a Justiça foi atrás dele.

    Só não foi do jeito que ele imaginava.

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  6. Hermington4:56 PM

    O escroto é ver tu falando assim: "no tempo eu trabalhava na procuradoria..." rs
    Pensei que tu ia ficar igual o Borges por aqui, rsrs, um abraço Chico Mouse, continua escrevendo, tu deve ter um monte de história pra contar.

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